Arquitetura do futuro

Em um caminho reverso, como o futuro prevê a arquitetura, quando o assunto é sustentabilidade, design, internet das coisas, qualidade de vida e, claro, a própria arquitetura? A valorização do bem-estar, tornar os ambientes mais confortáveis e harmoniosos são temas que devem estar na pauta de arquitetos, engenheiros e empresas na hora de projetar e construir, principalmente pela influência direta sobre a produtividade dentro de um ambiente corporativo.

Dewi Pinatih, editora sênior de Product Design da empresa britânica de inteligência de mercado Stylus, conversou com o Connectarch, programa de relacionamento da Decortiles e trouxe luz a essa questão.

A pauta da vez é… futuro!

Estudos sobre um futuro próximo são cada vez mais utilizados por marcas e profissionais de diversas áreas, pois permitem acompanhar, entre outros movimentos, as mudanças comportamentais de uma sociedade, e isso tem impacto direto no consumo. E na arquitetura não é diferente, como conta Dewi Pinatih, da Stylus. “A arquitetura reflete como nós vivemos hoje. Por isso é extremamente importante entender as tendências nos estilos de vida do consumidor para um futuro próximo e distante – é como garantimos que a arquitetura irá atender às necessidades dos futuros consumidores. Precisamos ter certeza de que nada do que construímos hoje será ‘inútil’ amanhã”.

Sustentabilidade, tecnologia e inteligência artificial

Dewi pontua que, como nossa vida profissional mudou rapidamente – e em muitos casos, radicalmente – sob a influência da pandemia, houve uma percepção coletiva de que as casas, escritórios e espaços públicos precisavam se adaptar. Isso se deu de uma hora para outra, mas se olharmos para outras questões, não só de espaço, mas para o meio ambiente, por exemplo, aqui também a arquitetura precisará de ajustes. “A luta contra as alterações climáticas terá também uma grande influência na arquitetura, tanto nos materiais que utilizamos na construção, como na forma como os edifícios se tornarão autossuficientes”. Essa ‘autossuficiência’ terá apoio incondicional da tecnologia que “está tornando nossos edifícios mais inteligentes e ajudando os humanos a serem mais sustentáveis. Por exemplo, sensores podem monitorar quais espaços estão em uso e desligar o ar-condicionado, iluminação ou aquecimento em partes não utilizadas do edifício. A tecnologia também está ajudando os arquitetos a ter acesso a materiais de construção reciclados e calcular como reduzir as emissões no processo de construção”, pontua Dewi.

Tal tecnologia já está muito mais próxima e acessível para profissionais do que se imagina. Existem no mercado ferramentas baseadas em inteligência artificial que auxiliam arquitetos, engenheiros e profissionais do setor imobiliário a desenvolverem cidades mais sustentáveis. Por meio delas é possível avaliar e testar soluções projetuais com maior agilidade que os permita encontrar melhores soluções para cada projeto, pois operam por meio de nuvens e utilizam tecnologias de Inteligência Artificial. Essa, por sua vez, auxilia a avaliar dados relativos ao terreno, mapas, condições de ventilação e iluminação natural, tráfego de veículos e zoneamento, ajudando a tomar melhores decisões durante as primeiras fases de projeto. É a tecnologia como aliada do meio ambiente.

Os Jetsons – aqui e agora

Talvez uma linha tênue nos separe dos Jetsons, mas apenas por uma questão visual, porque, para Dewi, já vivemos em cidades inteligentes. A diferença é a aparência que víamos nos desenhos animados dos anos 1980. “De certa forma, as cidades inteligentes já estão presentes ao nosso redor, mas não parecem tão futuristas como nos Jetsons. As marcas automotivas já estão testando seus carros de direção autônoma, que podem ler o ambiente (urbano) ao seu redor com a ajuda de sensores. Sensores no transporte público nos dizem onde encontrar um assento vazio em um trem movimentado, e os supermercados que não usam dinheiro já nos permitem fazer compras sem ter que parar para pagar no caixa. Os serviços conectados serão acelerados nos próximos anos à medida que o 5G se tornar mais integrado. Portanto, esse futuro está muito presente – o truque é não alienar as pessoas, mas comunicar como os consumidores podem se beneficiar”, conclui.

Conexões

O filósofo Alain de Botton aproxima a filosofia da vida contemporânea em seu livro “Arquitetura da Felicidade” – Editora Rocco, 2007 – e, em determinado ponto do livro, Alain descreve o lar sendo qualquer lugar com o qual o indivíduo se identifique e não necessariamente onde ele mora. “Falar em lar com relação a uma construção é simplesmente reconhecer sua harmonia com a nossa própria canção interior. Lar pode ser um aeroporto ou uma biblioteca, um jardim ou trailer de comida na beira da estrada.” Já Dewi acredita que, com a tendência do morar híbrido, as pessoas também deverão ter mais interações casuais e crê na transformação dos bairros. “As pessoas trabalharão em um escritório em tempo parcial e trabalharão em casa o resto do tempo. Isso irá influenciar a arquitetura da casa, que precisará apoiar o trabalho e os estudos, bem como atividades de lazer. Também irão procurar interações casuais com os vizinhos (já que não estão vendo os colegas de trabalho) e precisam de acesso a áreas verdes, ao ar livre. Vemos um foco maior em bairros locais que atendam a quase todas as nossas necessidades diárias e o surgimento da ‘cidade de 15 minutos’, onde trabalho, moradia, recreação, cultura e compras estão à distância de uma curta caminhada ou acessível de bicicleta”.

Mudanças

Trazendo para o cenário as próximas gerações que assumirão o “comando” da economia mundial – hoje 51% já está nas mãos da geração que tem entre 24 e 39 anos (os millennials se encontram no topo da pirâmide econômica do planeta, somando 1,8 bilhão de pessoas — quase um terço da população. Fonte: Pew Research)* – a questão da sustentabilidade é um dos pontos em destaque quando olha-se para o futuro. Sobre isso, Dewi deixa uma importante consideração: “muita coisa já está mudando e essa área é bastante regulamentada, guiada por acordos internacionais como o Acordo de Paris. Na Holanda, por exemplo, a permissão de planejamento é concedida apenas a projetos que cumpram os regulamentos de impacto ambiental de materiais usados em novas construções. Isso potencializa o uso de materiais reciclados (adquiridos em projetos de mineração urbana), pois podem reduzir o valor da obra por metro quadrado”.

Enfim, o futuro é agora