O design das coisas

Por Celina Cardoso

Uma das frases atribuídas a Henry Ford (1863-1947), ícone do empreendedorismo, é a seguinte: ‘se eu perguntasse às pessoas o que elas querem, elas me diriam que querem cavalos mais rápidos’. Relacionando a citação ao produto que a empresa que ele fundou fabrica até hoje, pode-se dizer que o empresário soube ler uma demanda social, produzindo em larga escala uma máquina com a mesma função, porém mais eficiente que cavalos: o carro.

Assim como Ford, em 1984, a Apple, fundada em 1976 por Steve Jobs (1955-2011), Steve Wozniak e Ronald Wayne, surpreendeu o mercado ao popularizar o conceito de computador pessoal com o lançamento de PCs com interfaces gráficas que facilitavam sua utilização, antes restrita a programadores e grandes empresas. No final do século 20, a mesma companhia revolucionou o cotidiano ao inventar o smartphone, um telefone celular com as mesmas funções de um computador e que, hoje em dia, é capaz de controlar outros utensílios da casa através da conexão com internet.

Além de se popularizarem por fabricarem produtos que, à época de seus lançamentos, ninguém sabia que eram tão necessários – e se tornaram quase indispensáveis para muita gente -, o que a Ford e a Apple têm em comum? Para Douglas Cavendish, coordenador do curso de Future Studies no Istituto Europeo di Design São Paulo, ambas souberam desvendar necessidades e comportamentos humanos e utilizaram o design, associado a outros saberes, para indicar novos caminhos ao criar objetos funcionais, de interfaces acessíveis e amigáveis, com uma estética sedutora. “Quanto mais o design se envolve em estudar o comportamento humano para criar novas coisas, para projetar coisas melhores, intrinsecamente ele vai antecipar comportamentos, sobretudo vai antecipar necessidades. Ou, no limite, vai sugerir outras que nem existiam. Então, por exemplo, a gente não sabia que precisava de um smartphone para viver. Hoje, é impossível imaginar a vida sem smartphone, sacou?”, pondera.

Design, pra que te quero?

E por que o design tem papel tão importante? Porque todos os objetos com os quais as pessoas lidam, desde o ato de sentar em uma cadeira ou digitar um e-mail, passam não só pela finalidade para a qual eles foram criados, mas também pela experiência de interação que ele oferece. Assim, ela pode ser boa ou não, tudo depende de como cada coisa foi projetada.

Sobre isso, Winnie Bastian, arquiteta, curadora de design e jornalista especializada no assunto, editora do site e do perfil do Instagram Design do Bom, opina que o mandamento “a forma segue a função”, forjado pelo arquiteto norte-americano Louis Sullivan, um dos principais nomes da escola de Chicago e já chamado de “o pai dos arranha-céus”. Contudo, Douglas e Winnie apontam outras questões e aspectos com as quais o design tem lidado como a experiência do usuário, resolução de problemas, o papel afetivo dos objetos e ambientes e a preocupação sobre o destino que cada produto terá ao cumprir seu papel.

Para ele, a emergência do UX Design, ou seja, a atenção à experiência do usuário, é um marco importante para a área. “No livro ‘The design of everyday things’, Don Norman faz essa analogia. Por exemplo, quando eu vou pegar um bule, eu tenho uma usabilidade nisso, tem uma jornada, uma forma de usar que vai me dar um certo resultado. E essa visão faz sentido tanto no ambiente físico, como no virtual”, comenta. Ele ainda destaca a importância de outra personalidade importante da área: o designer Tim Brown presidente da IDEO, empresa que desenvolveu o primeiro mouse. Autor da obra ‘Design Thinking’, Brown defende que o design, na verdade, está sempre resolvendo problemas.  “E aí, a gente tem um ponto de virada muito interessante. Porque os limites do design se perdem. Ele passa a ser uma espécie de agente social articulador da sociedade. Hoje a gente fala tanto de design genômico, quanto de design de sobrancelhas. Cara, isso é incrível, é maravilhoso porque mostra que design é uma palavra social, todo mundo usa”, festeja Douglas. 

Experiência funcional e afetiva

Mas tanto a experiência de usabilidade quanto a resolução de problemas passam por uma dimensão fundamental para humanos: o afeto que perpassa objetos presentes em ambientes que inspiram e afloram sentimentos, como a casa.

O designer André Grippi conta que se decidiu pela carreira muito pela relação afetiva que sempre teve com a casa e os rituais relacionados a cada espaço. “Quando criança, eu gostava de contornar cada parte da mobília com meus brinquedos. Fui crescendo curioso pelas formas e pela disposição dos móveis. Obviamente o design pode ter uma abordagem muito mais ampla. Mas o que eu gosto de pensar e propor é utilizar desta poesia nas relações que vamos criando ao longo da vida com os objetos ao nosso redor”, conta. Douglas aponta que, no futuro, o design vai estar cada vez mais ligada às emoções. E nesse aspecto, pondera sobre a ideia de forma e função cunhada pela Bauhaus. “Como é que produzo tristeza ou alegria? Como eu uno ou separo pessoas? Veja a Alexa, assistente virtual da Amazon, que nos remete a um rádio relógio antigo que tinha na casa da avó. Só a aparência já faz você se aproximar do uso da Alexa. O que nos leva a pensar sobre o julgamento da Bauhaus a respeito de forma e função. Hoje a gente entende que a aparência também exerce uma função, que ela é tão complexa quanto a engenharia”, afirma.

“Então assim, quando a gente pensa em jornada do usuário, a aparência é tão importante quanto a função. Porque o passo a passo que te leva a utilizar certo produto, faz surgir um comportamento ou sentimento, que também passa por formas e texturas. Olha que legal, a gente tá dizendo que design produz comportamentos, uma dimensão extremamente interessante”, diz Douglas.

Sustentabilidade tem tudo a ver com afeto

André acredita que o design tem papel não só de organizar e facilitar a vida, mas também de sensibilizar em um mundo onde a simultaneidade dos acontecimentos absorve as pessoas. Para ele, no futuro o design será capaz de equilibrar harmonicamente tecnologia, afeto e aconchego emocional. “A pandemia causada pelo Coronavírus deixou evidente o impacto da carência afetiva, tão importante quanto questões relacionadas à higiene. Acho que veremos no design uma busca por um pertencimento maior à natureza, com menos impactos ambientais e processos com custos mais baixos para obter produtos que carreguem o máximo de funcionalidade e também prezem pela estética”, diz.

Além da busca por produções que gerem menos impacto na natureza e utilizem matérias-primas de forma consciente, a indústria do design tem pensado no ciclo completo do produto. “Por exemplo, um berço. Se eu tiro as laterais, ele vira uma cama, prolongando a vida útil do móvel. Outro exemplo, embalagens que se transformam em revisteiro ou casinha para gatos. Ellen MacArthur, que fundou uma instituição dedicada à economia circular, costuma dizer que o lixo é um erro de projeto”, lembra Winnie. Para ela o mundo passa por transformações onde a consciência ambiental tem ganhado cada vez mais força, em que o pensamento coletivo tende a ressurgir, onde as pessoas buscam por objetos com histórias e o consumo tende a diminuir. “Um dos grandes mercados atuais é o dos móveis usados, é um negócio de bilhões. As pessoas têm valorizado móveis com história, há uma aceitação do imperfeito e a consciência ambiental também tem papel importante nisso”, conta Winnie.

Conteúdo produzido para o Connectarch, programa de relacionamento da Decortiles.

Decortiles Gallery: novo showroom inaugura nos Estados Unidos

No início deste mês, a Decortiles inaugurou o seu novo showroom nos Estados Unidos. A Gallery Decortiles fica localizada em Dallas, no Texas. Um espaço moderno e inspirador totalmente estruturado para que parceiros de negócios do mercado Americano possam especificar seus projetos com o que há de melhor e mais moderno no mercado em revestimentos cerâmicos.

O novo showroom conta com painéis, mesa de paginação, sala de amostras ets. seguindo o mesmo padrão visual adotado nos outros showrooms da marca, localizados em Cocal do Sul e em São Paulo.

O espaço conta com uma área de aproximadamente 5.000m² e, além do showroom, o complexo compreende ainda, o escritório comercial e o centro de distribuição.

Mural de Jackson Pollock

“Temos a arte para não morrer da verdade.” Com essa frase do filósofo Friedrich Nietzsche (1844-1900) o Connectarch traz ao seu leitor um pouco sobre a curiosa – e deliciosa – história da obra-prima “Mural” de Jackson Pollock. Com as considerações da art advisor Georgia Lobacheff, entraremos, ainda que de forma sucinta, neste conto que bem poderia figurar em um filme como “Contos de Nova York”, dirigido pela ilustre tríade composta por Martin Scorsese, Francis Ford Coppola e Woody Allen.

O começo de tudo

O ano era 1943 e Jackson Pollock vivia dias difíceis com sua esposa, a pintora Lee Krasner, em um pequeno apartamento em Nova York.  Naquele verão, o casal vivia um aperto financeiro, após Pollock ter tido sua saúde bastante debilitada nos idos de 1937, quando iniciou um tratamento psiquiátrico para alcoolismo e um colapso nervoso que o levou a uma internação por cerca de quatro meses. Pollock teve a chance de um novo começo com um pedido peculiar.  A então colecionadora Peggy Guggenheim, solicitou, ao ainda desconhecido artista, que criasse uma obra para o lobby de seu apartamento em Manhattan. Sua única exigência era que a arte cobrisse toda uma parede, mas ele tinha total liberdade para criar. Com um contrato de salário de $150,00 por mês – algo até então incomum – Pollock aceitou imediatamente o convite e, por orientação do amigo e conselheiro, e também artista, Marcel Duchamp à própria Peggy, a obra deveria ser criada em uma tela e não na parede como a amiga propusera, para que assim ela pudesse ser retirada e alocada em outros lugares, caso houvesse interesse. “Uma vez que existisse o afresco (obra na parede), ali permaneceria para sempre, mas que bom que a dica de Duchamp, além de muito boa, foi ouvida”, comemora a art advisor Georgia Lobacheff. Nas semanas que se seguiram, a falta de inspiração de Pollock manteve a enorme tela de 242,9×603,9cm em um lindo e alvo branco

Nasce “Mural”

Sob pressão e com a ameaça de ter seus rendimentos cortados, há quem diga que Pollock pintou “Mural” em uma noite apenas. Fato é que um restauro mostrou que há várias camadas em que Pollock usou mais de vinte cores que demoraram semanas para secar. Seria uma evidência de que tenha sido pintada de uma única vez? E, assim, nasce “Mural, uma obra que fica entre a abstração e a figuração”, conta a art advisor. “É possível identificar rostos, figuras nela, mesmo suas obras sendo reconhecidas como parte de um estilo chamado de expressionismo abstrato. Abstração por ser uma pintura não figurativa propriamente dita, mas com expressão, que é tudo o que Pollack fazia. A grande novidade da obra de Pollock era pintar com o corpo. Essa técnica de ‘dripping’ (gotejamento), inovadora para a época, tem a ver com expressão. Tem a ver com a ação em si de expressão do corpo dele, a ação de pintar com a força do corpo. “Enquanto outros artistas da mesma época estavam inclinados à abstração, Pollock estava focado na expressão dentro da abstração”, explica Geórgia. Vale destacar que, inventada pelo surrealista Max Ernst, a técnica de dripping foi adotada por Pollock que dispunha de grandes telas no chão do ateliê e usava o corpo como instrumento para suas abstrações.

jackson pollock
Fonte: Site de Jackson Pollock

De volta para casa

Partindo de São Paulo, 7.681 mil quilômetros nos separam de “Mural”. Mas, isso é apenas um detalhe quando se calcula as viagens que já fez: Bilbao, Londres, Boston e Sioux City, e quando se pensa em toda sua história e na importância de ter voltado ‘pra casa”, em Nova York. Após sua conclusão, no mesmo ano em que foi solicitada, “Mural” ficou exposta por muitos anos no apartamento de sua patrocinadora. Ao fim da Segunda Guerra mundial, Peggy volta a morar na Europa onde não há espaço para uma tela com as dimensões de “Mural”. Após muitas negociações, decide, em 1951, doar o trabalho para a Escola de Arte e História da Arte da Universidade de Iowa onde permaneceu até 2020. Em seu novo lar em Nova York, no museu Solomon R. Guggenheim, homônimo ao tio de Peggy e fundador do museu de quem ela herdou o fino gosto pelas artes, a obra de Pollock se une a outras do artista no museu como Ocean Greyness (1953), Number 18 (1950), Alchemy (1947).

Elementos atemporais por Carol Bezerra

“A personalidade do cliente nunca sai de moda!”. Arquiteta e influenciadora Carol Bezerra comenta sobre um décor sempre atual com elementos atemporais.

Por Ivan Dognani

A cada ano o mercado traz à tona as tendências que influenciam diretamente a moda, o design, a tecnologia e o consumo. Por que não a arquitetura e a decoração? Em muitos momentos, decorar um novo projeto parece ser missão impossível. Principalmente para quem é avesso às constantes mudanças. Quais elementos usar? Cores? Mobiliários? O que é necessariamente indispensável? E a pergunta que não quer calar: o que não sai de moda nunca? Em entrevista exclusiva para o Connectarch, o programa de relacionamento da Decortiles, a arquiteta e influenciadora Carol Bezerra (@caroldecora) foi taxativa ao dizer que “a personalidade do cliente nunca sai de moda!”

Projeto de Carol Bezzera com o revestimento cerâmico Atol Jade

Estilo do cliente em primeiro lugar

Indo mais a fundo, Carol destaca a atenção necessária na hora de especificar elementos da composição projetual, como por exemplo, a marcenaria fixa composta por armários, painéis e portas e os revestimentos que ficam em evidência, como pisos e paredes. “Exploro muito a luz natural em meus projetos e acredito que podemos, sim, ir além das cores neutras, desde que isso imprima a personalidade, o estilo do cliente. A luz valoriza demais!”, comenta. Em um de seus projetos uma cliente pediu que a parede da cozinha fugisse do comum, que fosse jovial, moderna e trouxesse algum aspecto natural. “Desafiador! Mas, para cumprir esse papel, apostei no revestimento Atol Jade, da Decortiles, que resgata os recifes banhados e esculpidos pelos oceanos e traz para o lar todo aspecto energético e terapêutico da natureza. O resultado ficou incrível!”, relembra.

Saiba como usar as tendências

Carol ressalta que as tendências são, sim, importantes e podem ser aproveitadas em elementos e acessórios que possam ser substituídos com facilidade ao final do ciclo. “É claro que branco, cinza e offs não saem do radar e são bastante explorados nos projetos. Mas, quando apostamos em elementos mais arrojados, é sempre retratando algo que nunca sairá de moda, que é o gosto e personalidade de cada um”, completa. Bases neutras são sempre aliadas para quem não quer errar na hora de escolher os elementos atemporais.

Projeto de Carol Bezzera com o revestimento cerâmico Ágata
Foto: Rayssa Lorena

Imprimindo personalidade nos projetos

A profissional fezum projeto para seu próprio apartamento e criou algo limpo, com pontos atemporais e que atendem todas as necessidades. “Mas também consegui, ao mesmo tempo, ser contemporânea, ousada e conceitual, que não é nada fácil! Escolhi o revestimento Órbita, assinado pelos Irmãos Campana,para fazer o frontão da cozinha, sou apaixonada por esse projeto”, conta. A inspiração para a criação dos Campana vem das noites estreladas do interior e da paixão pela ficção científica. Estrelas e planetas dourados cintilando no céu noturno estampam as superfícies de fundo negro intenso. Na luta contra o modismo deixa claro que não existe nada mais impessoal do que criar um projeto baseado apenas na moda e esquecer de explorar o estilo e costumes do morador. “Ostentar demais também está em desuso, imprimir no espaço coisas que não fazem parte do contexto daquela pessoa apenas porque está na moda não é nada legal”. Em suma, defende que o que nunca vai sair da moda é a essência de quem lá vive. “Por isso eu sou adepta do mantra “menos casa, mais lar” e tento passar essa mensagem a todos os clientes e seguidores”, finaliza.

Elementos Atemporais

Pedimos para a profissional listar alguns materiais que nunca saem de moda. Veja o que mais agrada Carol Bezerra nos projetos:

Revestimentos naturais: Usar pisos neutros, revestimentos que se assemelhem às rochas naturais e por sua vez, rochas não tão marcadas – para que o efeito não fique enjoativo, sobretudo, em pequenos ambientes. Na marcenaria, utilizar madeira natural ou MDFs que remetam ao aspecto original do material, sempre com uma estética leve jovial;

Estilo do cliente: Para o projeto não sair de moda rapidamente, aconselho que não baseie todo trabalho em tendências cíclicas. É muito importante respeitar o “ciclo de vida” dos materiais;

Cores coringa: Branco, cinzas e offs não podem sair do radar.

“FUTUROS POSSÍVEIS” MARCA SEGUNDO DIA DE CONNECTARCH SUMMIT

Maior evento digital sobre arquitetura e design, o Connectarch Summit  chega à segunda edição reunindo  grandes referências da arquitetura, design, comportamento, inovação, criatividade e outros temas ligados à atualidade.

Sob o comando do arquiteto e apresentador Renato Mendonça e da jornalista Chris Campos, a edição deste ano inovou ao trazer comentaristas no palco para fomentar debates relacionados aos assuntos tratados pelos palestrantes. No segundo dia, os comentários ficaram por conta do arquiteto Nicholas Alencar. 

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Futuros Possíveis, tema que norteou as palestras do segundo dia (11), trouxe o doutor em Cosmologia Luiz Alberto Oliveira que abriu a noite de palestras falando sobre “Futuros incertos, possíveis e desejáveis”. Luiz trouxe reflexões sobre as incertezas e como tais percepções podem ser cruciais para o futuro. “A única certeza que teremos é que o incerto irá ocorrer e nos encontraremos com ele.” Em um paralelo com o presente, o questionamento mais que pertinente sobre o futuro, Oliveira afirma que nossas ações é que vão delinear o futuro e traça um comparativo com uma estrada. “O futuro não é uma estrada, o futuro é construído de acordo com as nossas escolhas, então devemos pensar o futuro como possibilidades, como uma estrada com bifurcação. É possível escolher qual lado seguir e essa escolha vai direcionar o futuro.” 

Amigo de longa data do mestre Oscar Niemeyer, o cosmologista, em um lapso saudosista, trouxe um questionamento feito por ele a Niemeyer: “Como você cria?” A resposta, dada em prontidão, segue ainda hoje em sua mente: “Busco sempre o inesperado.” E é com o inesperado, que segundo Luiz, é possível converter possibilidades em probabilidades, criando assim um futuro desejável. “O inesperado faz parte de um tipo de operação que faz com que algo meramente possível se torne real e a arquitetura ‘oscariana’ que tem como premissa fazer com que o usuário seja frequentemente surpreendido, é muito boa nisso.” 

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Cidades – organismos vivos

Na sequência, o tema ‘Future in Motion’ foi abordado pela futurista Daniela Klaiman e pela cientista especializada em pesquisa e comportamento de consumo, Andrea Bisker, à frente da Spark: off Brasil. Em total consonância, ambas afirmam que os futuros não existem, pois nós os fazemos hoje e com base no conceito de ‘protopia’ – que não é o futuro perfeito, mas o futuro que a gente faz hoje – Andrea e Daniela pontuam que tudo o que estamos vivendo é resultado de nossas ações e, por isso, precisa-se repensar atitudes e desenvolver soluções que possibilitem a continuação da vida humana na Terra. Com base nessa premissa, para elas, o projeto de Smart City ganha protagonismo e passa a ser pedra fundamental para a existência. “Usar a tecnologia para melhorar os centros urbanos e deixá-los mais eficientes com o objetivo de trazer bem-estar e transformar a vida das pessoas, é hoje fundamental”, pontua Andrea, que provoca os profissionais de arquitetura e design ao dizer que “na protopia, os arquitetos podem fazer a diferença.” 

Para ambas, é imprescindível que a arquitetura repense moradias e modo de viver, e questionam: “Como a arquitetura vai ajudar essa geração – aqui se referem aos baby boomers – que pode viver até 100 anos? São pessoas que terão problemas de mobilidade,  de memória. Essa geração vai querer morar próxima de outras pessoas, e a arquitetura precisa olhar para isso, começando a construir mini-cidades para a comunidade de colonos de prata (cabelos prateados).” 

Daniela, por sua vez, expõe a fragilidade humana em um futuro bem próximo que precisa ser tratado com atenção: “Como serão as grandes cidades?” Ela mesma responde: “As pesquisas falam que as cidades precisam ser flexíveis, pois são como organismos vivos.” Pensando nisso, ambas concordam que a arquitetura se faz necessária, principalmente quando a pauta não é só sustentabilidade, mas regeneração, enfatizando a biomimética nas fachadas de prédios, a construção de comunidades flexíveis com espaços multigeracionais, pois, explicam, as pessoas não estão sendo obrigadas a morar junto, mas moram porque querem estar juntas umas das outras. Neste contexto, a vida passa a ser compartilhada, pois “o grande desafio vai ser combater a solidão e a arquitetura pode ajudar e fazer as pessoas se encontrarem, criando espaços de conexões”, finalizam. 

“Nem tudo precisa ser predatório”

Na palestra ‘Building the future of business (with purpose)’, Lisiane Lemos, Forbes Under 30 em 2017 e uma das principais lideranças jovens do país, desmistifica que ter propósito é ter algo grandioso. Para ela, ter propósito é impactar a realidade de alguém. “Não tem sensação melhor do que transformar a vida das pessoas.” Advogada por formação e especialista em tecnologia, Lisiane é membro do conselho consultivo do Fundo de População das Nações Unidas, Kunumi AI, e do conselho emérito do Capitalismo Consciente Brasil. E, falando em Capitalismo Consciente, Lisiane explica que sim, ele existe. “Nem tudo precisa ser predatório. Enquanto a gente existe, há um ecossistema ao redor. Temos que nos preocupar com o impacto das nossas ações e com nossos clientes, e viver em harmonia com o meio.”

Mas não é só o meio, são pessoas também. “Os modelos de negócios eram de uma forma antes da pandemia, agora é outra e é possível levar ‘toque’ humano por meio da tecnologia, mas para que isso funcione, para que possamos construir tecnologias que mudem a vida das pessoas, temos que entender as pessoas e suas histórias.” Para ela, cada um traz sua bagagem e é com base nela que cada qual constrói sua trajetória, mas algumas coisas continuam iguais como a desigualdade entre homens e mulheres no mercado de trabalho. Contudo, algumas mudanças já estão ocorrendo como a horizontalidade dentro das empresas. “A hierarquia é um valor que tem sido desmistificado. Os novos modelos de negócios estão cada vez mais lineares. Não é questionar a autoridade de uma chefia, mas apontar outros caminhos e interagir com os gestores de uma forma mais ágil. Entendo que a gente cresce a partir da experiência do outro.” 

Encerrando sua participação no evento, o assunto diversidade é um dos pontos relevantes de sua fala. “A solução hoje tem que ser mobile, tem que ser plural sob a ótica de gênero e pessoas com deficiência.” Ela explica que é preciso adaptar o modelo operacional e construir uma mentalidade além da crise, pois ela vai acabar. “É preciso focar no futuro, pois o futuro é amanhã, mas é o mês que vem também e, hoje, somos cinco gerações no mercado de trabalho. Por isso é preciso inovar e a inovação começa sempre por pessoas. Se as pessoas não estiverem em primeiro lugar, nenhuma transformação vai funcionar.” E finaliza: “a diversidade é um motor de inovação.”

Natureza

Fechando a noite de palestras, um dos nomes mais importantes da arquitetura internacional, Dror, abordou o tema “The future of ecological harmony”. O designer, pensador, inventor e futurista, cuja engenhosidade resulta em uma gama impressionante de trabalhos não convencionais comoventes, afirma que “é preciso trabalhar através de várias disciplinas, pois o mundo está mudando, de novo. Tem alguns pontos críticos e como designers ou pensadores, precisamos dar apoio a essas necessidades que são muito importantes para nossas vidas e nosso planeta.” Em um panorama nada animador, Dror traz dados urgentes para uma reflexão. “Em trinta ou quarenta anos, vamos dobrar. É muito difícil, mas precisamos pensar nas densidades urbanas. Um problema massivo e somos parte disso, por isso, essa vida urbana tem que mudar. Precisamos parar com essa loucura, não dá para continuar com esse tipo de sistema. Precisamos sim, construir mais casas, mas precisamos encontrar outra forma.” 

O designer acredita que tudo tem que estar em conjunto, reinventar novas formas, mudar as motivações e trabalhar entendendo o que acontece a curto e longo prazo. “Usamos mal a sustentabilidade. Precisamos pensar o que significa viver em harmonia com a natureza e podemos achar a solução, o equilíbrio.” Ele aposta no objetivo de encontrar uma tipologia que não seja apenas a construção por si só, mas algo que se espelhe na natureza. “A natureza se organiza muito bem em células. Podemos conseguir a mesma densidade, reduzindo a quantidade de estradas se usarmos o formato de células. Os carros, por exemplo, vão transitar mais facilmente nesse modelo.”
Uma lógica celular tem várias formas diferentes, podem ser retângulos, quadrados, mistura de formas com vegetação. É possível adaptar situações do terreno e é muito fácil fazer isso com o sistema celular, além da questão emocional, segundo Dror. “Quando organizada em forma celular, se tem igualdade, compartilhamento e cria-se relacionamentos. Por isso é tão importante pensarmos a respeito do fluxo nessas construções.” Para ele, a forma linear a qual estamos inseridos,  “é muito chata”, e explica que a  forma celular não se trata apenas da lógica estrutural, mas de aprender com a natureza, por isso avaliam a posição do sol e dos ventos antes de construir. “Trata-se da melhoria do comportamento cognitivo na qual é possível aumentar a produtividade devido aos estímulos que a natureza tem sobre o nosso cérebro.”

É urgente construir melhor, mais rápido e mais barato, segundo o arquiteto, mas, para isso, alguns hábitos precisam ser esquecidos. “Temos hoje melhorias tecnológicas incríveis que permitem nos ajudar nos processos fabris, mas creio que estamos numa crise de imaginação. Temos que utilizar as novas tecnologias para criar coisas com elas. Criar formas complexas e mais interessantes, porque continuamos a fazer coisas com as mesmas abordagens. Uma das coisas que aprendemos nesse tempo é que estar na natureza nos faz sentir bem, nos faz sentir mais equilibrados, melhores conosco. Chegamos ao ponto de que muitos de nós está cansado de tantas inovações tecnológicas. Não estou dizendo que não devemos evoluir tecnologicamente, mas não podemos esquecer que somos parte da natureza.” 

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Para participar, basta se inscrever em http://connectarch.com.br/summit/.