Arquitetura do futuro

Em um caminho reverso, como o futuro prevê a arquitetura, quando o assunto é sustentabilidade, design, internet das coisas, qualidade de vida e, claro, a própria arquitetura? A valorização do bem-estar, tornar os ambientes mais confortáveis e harmoniosos são temas que devem estar na pauta de arquitetos, engenheiros e empresas na hora de projetar e construir, principalmente pela influência direta sobre a produtividade dentro de um ambiente corporativo.

Dewi Pinatih, editora sênior de Product Design da empresa britânica de inteligência de mercado Stylus, conversou com o Connectarch, programa de relacionamento da Decortiles e trouxe luz a essa questão.

A pauta da vez é… futuro!

Estudos sobre um futuro próximo são cada vez mais utilizados por marcas e profissionais de diversas áreas, pois permitem acompanhar, entre outros movimentos, as mudanças comportamentais de uma sociedade, e isso tem impacto direto no consumo. E na arquitetura não é diferente, como conta Dewi Pinatih, da Stylus. “A arquitetura reflete como nós vivemos hoje. Por isso é extremamente importante entender as tendências nos estilos de vida do consumidor para um futuro próximo e distante – é como garantimos que a arquitetura irá atender às necessidades dos futuros consumidores. Precisamos ter certeza de que nada do que construímos hoje será ‘inútil’ amanhã”.

Sustentabilidade, tecnologia e inteligência artificial

Dewi pontua que, como nossa vida profissional mudou rapidamente – e em muitos casos, radicalmente – sob a influência da pandemia, houve uma percepção coletiva de que as casas, escritórios e espaços públicos precisavam se adaptar. Isso se deu de uma hora para outra, mas se olharmos para outras questões, não só de espaço, mas para o meio ambiente, por exemplo, aqui também a arquitetura precisará de ajustes. “A luta contra as alterações climáticas terá também uma grande influência na arquitetura, tanto nos materiais que utilizamos na construção, como na forma como os edifícios se tornarão autossuficientes”. Essa ‘autossuficiência’ terá apoio incondicional da tecnologia que “está tornando nossos edifícios mais inteligentes e ajudando os humanos a serem mais sustentáveis. Por exemplo, sensores podem monitorar quais espaços estão em uso e desligar o ar-condicionado, iluminação ou aquecimento em partes não utilizadas do edifício. A tecnologia também está ajudando os arquitetos a ter acesso a materiais de construção reciclados e calcular como reduzir as emissões no processo de construção”, pontua Dewi.

Tal tecnologia já está muito mais próxima e acessível para profissionais do que se imagina. Existem no mercado ferramentas baseadas em inteligência artificial que auxiliam arquitetos, engenheiros e profissionais do setor imobiliário a desenvolverem cidades mais sustentáveis. Por meio delas é possível avaliar e testar soluções projetuais com maior agilidade que os permita encontrar melhores soluções para cada projeto, pois operam por meio de nuvens e utilizam tecnologias de Inteligência Artificial. Essa, por sua vez, auxilia a avaliar dados relativos ao terreno, mapas, condições de ventilação e iluminação natural, tráfego de veículos e zoneamento, ajudando a tomar melhores decisões durante as primeiras fases de projeto. É a tecnologia como aliada do meio ambiente.

Os Jetsons – aqui e agora

Talvez uma linha tênue nos separe dos Jetsons, mas apenas por uma questão visual, porque, para Dewi, já vivemos em cidades inteligentes. A diferença é a aparência que víamos nos desenhos animados dos anos 1980. “De certa forma, as cidades inteligentes já estão presentes ao nosso redor, mas não parecem tão futuristas como nos Jetsons. As marcas automotivas já estão testando seus carros de direção autônoma, que podem ler o ambiente (urbano) ao seu redor com a ajuda de sensores. Sensores no transporte público nos dizem onde encontrar um assento vazio em um trem movimentado, e os supermercados que não usam dinheiro já nos permitem fazer compras sem ter que parar para pagar no caixa. Os serviços conectados serão acelerados nos próximos anos à medida que o 5G se tornar mais integrado. Portanto, esse futuro está muito presente – o truque é não alienar as pessoas, mas comunicar como os consumidores podem se beneficiar”, conclui.

Conexões

O filósofo Alain de Botton aproxima a filosofia da vida contemporânea em seu livro “Arquitetura da Felicidade” – Editora Rocco, 2007 – e, em determinado ponto do livro, Alain descreve o lar sendo qualquer lugar com o qual o indivíduo se identifique e não necessariamente onde ele mora. “Falar em lar com relação a uma construção é simplesmente reconhecer sua harmonia com a nossa própria canção interior. Lar pode ser um aeroporto ou uma biblioteca, um jardim ou trailer de comida na beira da estrada.” Já Dewi acredita que, com a tendência do morar híbrido, as pessoas também deverão ter mais interações casuais e crê na transformação dos bairros. “As pessoas trabalharão em um escritório em tempo parcial e trabalharão em casa o resto do tempo. Isso irá influenciar a arquitetura da casa, que precisará apoiar o trabalho e os estudos, bem como atividades de lazer. Também irão procurar interações casuais com os vizinhos (já que não estão vendo os colegas de trabalho) e precisam de acesso a áreas verdes, ao ar livre. Vemos um foco maior em bairros locais que atendam a quase todas as nossas necessidades diárias e o surgimento da ‘cidade de 15 minutos’, onde trabalho, moradia, recreação, cultura e compras estão à distância de uma curta caminhada ou acessível de bicicleta”.

Mudanças

Trazendo para o cenário as próximas gerações que assumirão o “comando” da economia mundial – hoje 51% já está nas mãos da geração que tem entre 24 e 39 anos (os millennials se encontram no topo da pirâmide econômica do planeta, somando 1,8 bilhão de pessoas — quase um terço da população. Fonte: Pew Research)* – a questão da sustentabilidade é um dos pontos em destaque quando olha-se para o futuro. Sobre isso, Dewi deixa uma importante consideração: “muita coisa já está mudando e essa área é bastante regulamentada, guiada por acordos internacionais como o Acordo de Paris. Na Holanda, por exemplo, a permissão de planejamento é concedida apenas a projetos que cumpram os regulamentos de impacto ambiental de materiais usados em novas construções. Isso potencializa o uso de materiais reciclados (adquiridos em projetos de mineração urbana), pois podem reduzir o valor da obra por metro quadrado”.

Enfim, o futuro é agora

HOME OFFICE: NOVAS RELAÇÕES DE TRABALHO IMPULSIONAM A TRANSFORMAÇÃO NOS LARES

Famílias de todo o mundo vêm tentando se adaptar à nova realidade imposta pelos desafios atuais. Passando mais tempo dentro de suas próprias casas, passaram a enxergar melhor os espaços, a fim de torná-los ainda mais úteis e aconchegantes.

O trabalho no formato home office não é exatamente uma novidade e muito antes que fosse uma necessidade na realidade de muitos trabalhadores, algumas empresas já ofereciam este tipo de flexibilidade. Entretanto, desde o ano passado, profissionais de diferentes áreas começaram a trabalhar exclusivamente de casa e essa transformação tem sido tão potente, que especialistas da área de recursos humanos defendem que este estilo de trabalho continuará fazendo parte da vida de muitos, mesmo em um cenário normalizado.

Os impactos do momento que vivemos são distintos e cada família se adapta como pode. Acontece que ficar em casa passou a ser uma premissa para preservar a própria saúde e a dos demais, e ao limitar as saídas apenas à resolução de assuntos emergenciais, nossa relação com o espaço em que habitamos também mudou. Afinal, agora mais do que nunca, a casa deixou de ser apenas um local de descanso e de convivência com a família para se tornar um ambiente multifacetado, que atende também às necessidades de trabalho, de estudos, entre tantas outras.

Segundo a arquiteta Debora Aguiar, dentre as inúmeras mudanças comportamentais ocasionadas pela pandemia, a da casa como refúgio/porto-seguro, se tornou o foco, o centro de tudo. “A compreensão e tomada de consciência dessa importância nunca esteve tão presente como agora. Investir no lar tornou-se urgente e saudável. Ali é o lugar onde tudo acontece, e onde a permanência em cada espaço ficou maior. A casa ressignificada como esse centro de união e convivência permite a otimização do tempo mas também a necessidade de privacidade quando necessário”.

Este olhar mais atento às funcionalidades dos ambientes domésticos e a vontade de tornar o lar mais acolhedor aflorou em muitos o desejo de morar em um imóvel maior, com mais áreas de lazer e espaços verdes. Mas, há também quem tenha decidido investir no local onde já vive, adaptando espaços e criando soluções para as necessidades desta casa adaptada para o “novo morar”.

“Sempre que possível, já incorporávamos em nossos projetos um espaço reservado para escritório. Com a pandemia, uma nova realidade foi sacramentada: muitos trabalhos e atividades podem ser desenvolvidos e realizados à distância, fazendo que o espaço físico das casas tenha que ser adaptado para que isso ocorra com conforto e também privacidade, quando necessário”, explica a arquiteta Debora Aguiar.

Consciente das demandas corporativas e pessoais que priorizem o bem-estar e o meio ambiente, a Decortiles preparou uma seleção de ideias que unem praticidade, beleza e superioridade técnica. Conheça abaixo algumas sugestões de ambientes que seguem estes conceitos:

city-zen antracite na 60x120cm – cristal rosa AC 30x30cm
City-Zen Nude PO 90x90cm, Tijuca Branco AC 29x29cm
Color Mind Army BR 7x25cm, Natural Prosecco AC 33,5x60cm, City-Zen Nude NAT 80x80cm
Color Mind Corten AC 7x25cm, City-Zen Inox NAT 80x80cm

Wellness: conceito que se protagonizou dentro de casa

Relaxar, bem-estar, sentir-se bem. Esses e tantos outros atributos usados para interpretar a palavra wellness vêm ganhando peso e destaque no dia a dia das pessoas. O conceito de wellness se protagonizou dentro de casa, seja pela busca de lugares para descansar, fazer exercícios ou se conectar consigo, com a natureza, ou se desconectar.

O Connectarch, programa de relacionamento da Decortiles, ouviu profissionais que cuidam da mente, do corpo e da arquitetura para entender como as pessoas se adaptaram – ou ainda não – ao “atual” normal e entender como a nova economia do wellness está moldando a construção de novos negócios, casas e escritórios. O personal trainer e professor de dança Anderson Marco, a arquiteta Ana Rozenblit, do escritório Spaço Interior, e a psicóloga Adriana Severine falaram sobre as mudanças, o comportamento e a nova realidade de suas profissões e do modo de vida de seus clientes e pacientes.

Mudanças de paradigmas

Quem poderia imaginar, anos atrás, a realidade que estamos vivendo hoje? A maior parte da população (mundial) passa uma boa fatia do tempo dentro de casa, onde concilia estudos com a vida profissional, afazeres domésticos com a educação dos filhos. Como pode ser real ainda conseguir um tempo nessa odisseia insana para cuidar de si próprio? Sim, é possível! E não estamos falando de super-heróis ou super-heroínas, mas de pessoas normais, de seres humanos. E, além disso, como é possível ainda enxergar as reais mudanças, para o bem ou para o mal, nesse novo “normal” – desculpe o clichê, mas ele se faz necessário – que transformou a vida de algumas pessoas, como conta a psicóloga Adriana Severine.

Aos 52 anos, a profissional que já atendia em formato on-line cerca de 25% de seus pacientes, se sentiu confortável com a transição dos outros 75% para o mundo virtual. “Minha adaptação foi tranquila, já atendia muitos pacientes do exterior dessa forma. O complicado foi colocar um limite de horário para mim, não trabalhar depois da meia-noite, aos sábados e aos domingos”, conta. Mas, ela reconhece as dificuldades. “Como estava em casa, sempre dava a sensação que era mais tranquilo, porém depois de três meses com esse ritmo acelerado comecei a sentir o cansaço por não separar vida pessoal da profissional com limites claros”, desabafa.

Adaptação e resiliência são palavras de ordem. É preciso se adequar à nova realidade e encarar que, mesmo que seja por um tempo, as mudanças são necessárias. Atividades das mais “físicas” por assim dizer, também precisaram se adaptar e, segundo o personal trainer Anderson Marco, de 40 anos, parece que as mudanças vieram para ficar. “A adaptação foi gradativa. Os alunos foram devagar migrando para o virtual. Ao saber da experiência do outro decidiam por experimentar também”. Ele conta que com a reabertura das academias em momentos de flexibilização das regras sanitárias impostas pelo governo em São Paulo, ainda assim, 60% dos alunos decidiram continuar as aulas virtualmente. Mas não parou por aí. “Até cinco meses atrás (novembro 2020) todos os meus alunos migraram para o virtual”. E comemora: “Também ganhei alunos novos que já queriam dar início à atividade física no modelo virtual”.

A casa e o bem-estar

Tanto na realidade do Anderson, quanto na de Adriana, não houve casos de mudanças extremas no ambiente físico de alunos ou pacientes para a realização de treinos ou consultas, a não ser uma nova disposição de mobiliário para os exercícios – “apenas um ‘arrastar de um móvel ou tapete’ foi necessário para alguns alunos”, conta o professor, ou escolher um local onde pudesse estar sozinho para uma boa conversa – “os pacientes precisam estar em um lugar onde sintam-se confortáveis e seguros de que a confidencialidade será mantida, onde ninguém irá ouvi-los”, diz a psicóloga.

Cenário diferente para a arquiteta Ana Rozenblit que viu crescer a demanda por projetos que privilegiassem o bem-estar, com solicitações de espaços para meditação, exercícios físicos e, até mesmo, a espiritualidade. “A pandemia trouxe para a arquitetura várias demandas e propósitos diferentes e um dos destaques, mais especificamente no lar das pessoas, foi a demanda pelo bem-estar dentro de casa. Toda solicitação de projeto que a gente tem hoje é voltada para como ficar bem em casa, não só no que tange o trabalho – o home-office, mas poder viver de uma maneira melhor”. Ela conta que houve um aumento em projetos voltados para uma nova configuração residencial, para o que a pessoa quer, para o que lhe faça bem, como espaços alternativos com paredes verdes vivas. “Essa foi uma das maiores solicitações, porque as pessoas querem estar próximas da natureza mesmo que dentro de um apartamento pequeno”.

Outra demanda da admiradora da neuroarquitetura – estudo da neurociência aplicada à arquitetura – durante a pandemia, foi a espiritualidade. “Quem tem alguma crença ou mesmo uma ligação energética, pediu um ‘cantinho zen’, isso independentemente da religião. O que os clientes mais queriam era um espaço para relaxar, para se conectar com eles próprios, com alguma pessoa, com alguma coisa ou alguma luz maior. Isso foi um pedido mais frequente”, relata.

Qualidade de vida

Sobre o rendimento do aluno na versão virtual, Anderson diz que melhorou muito. “Tive resposta positiva de 90% dos meus alunos. Como a mudança de estímulo foi bem radical somada aos cuidados que todos passaram a ter por conta de tudo o que se falava sobre a COVID-19 eles perderam peso e aumentaram muito o condicionamento físico e, consequentemente, a qualidade de vida”. E complementa: “se exercitar em qualquer situação é fundamental para manter nossa saúde em dia e nossa imunidade elevada, na pandemia é imprescindível estarmos atentos a isso”.

Prestar atenção na qualidade de vida está na pauta dos profissionais, principalmente em tempos de home-office e com o estresse do distanciamento social e do confinamento ao qual todos foram submetidos devido à pandemia. “Para as pessoas que estão trabalhando home-office é importantíssimo ter uma rotina e manter horários de pausa para um café, um suco, almoçar nos horários que estavam acostumados. Trabalhar até tarde, bem depois do seu horário, precisa ser uma exceção e não permitir emendar trabalho com vida pessoal”, aconselha a psicóloga.

Anderson acredita que é importante fazer o home-office ter cara de trabalho, como se estivesse atuando em um ambiente corporativo de verdade, mesmo em casa. “No meu caso utilizo um cômodo vazio para demonstração e correção das atividades, sempre estou sozinho com meu aluno e utilizo fones via Bluetooth para que mesmo ao me afastar da câmera para demonstrações de exercícios o aluno me ouça perfeitamente”.

Por sua vez, Ana aposta que, independentemente da mudança estrutural dentro de casa que o cliente possa desejar, o importante é entender que “as pessoas querem viver bem, morar bem no espaço que elas têm”, finaliza.

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Novos padrões de comportamento impulsionam mudanças no morar

Por conta da pandemia, o contato com a natureza cresceu junto com a procura de imóveis no interior.

Moradora do bairro de Pinheiros, em São Paulo (SP), há cinco anos a professora de ioga Priscilla Vicenzo pensava em mudar de cidade. A venda do prédio no qual ela morava e a chegada da pandemia impulsionaram a troca da capital paulistana pela pequena Gonçalves, no interior de Minas Gerais, em setembro de 2020. “A dinâmica da cidade e a falta de natureza acessível foram as minhas maiores motivações para a mudança. Quando a quarentena começou, me pareceu muito opressor a ideia de estar dentro de um apartamento. Eu queria mais espaço, terra, um espaço para tomar sol e ver o céu. Para eu me sentir menos presa”, conta.

Priscilla faz parte de uma parcela da população que tem trocado a vida nas grandes metrópoles por um dia a dia mais simples e com maior contato com o verde. Segundo Luiza Loyola, expert em futuro da WGSN, agência especializada em tendências, esse movimento, que já havia sido detectado há alguns anos, é conhecido como escapismo rural e foi impulsionado pela pandemia de Covid-19. Ela esclarece que esse comportamento tem sido uma válvula de escape durante o período de distanciamento social e está ligado às tendências Hygge e Casa Santuário, focadas em conceitos de mindfulness, prazeres simples das tarefas diárias e design confortável e tátil.

Esse tal de novo morar

Casas que se conectam com a vida outdoor de forma sustentável e com décor mais minimalista ganham destaque, assim como a performance dos espaços, o que eles permitem fazer e o que significam. “Essa nova maneira de morar é mais aberta, múltipla, se preocupa menos com os rótulos da tradição e mais com a criação de experiências e variações do dia a dia. A ideia de que forma segue a função já não faz tanto sentido, uma vez que nossa casa agora tem mil funções, usos que ninguém poderia imaginar há um ano”, afirma Thiago Maso, mestre em Projeto Avançado de Arquitetura pela Columbia University New York, sócio do escritório N8Studio e professor de teoria e projeto arquitetônico no Centro Universitário Católica de Santa Catarina.

Para ele, o caminho mais interessante a ser seguido na arquitetura neste cenário é o de desfazer limites. “Onde termina o interior e começa o exterior? A sacada é um bom exemplo: ela pertence somente a você ou é também parte da cidade, onde você pode conversar com vizinhos, respirar novos ares, plantar um jardim?”, provoca o professor.

Integração bem pensada

A busca por integração já começa no projeto. A preocupação com uma construção sustentável e menos agressiva ao meio ambiente anda de mãos dadas com conceitos como bioarquitetura, biomimética, neuroarquitetura e design afetivo. Para Ana Maria Fasanella, professora mestre da Faculdade de Arquitetura Urbanismo e Design da Universidade Presbiteriana Mackenzie, a casa de quem procura maior qualidade de vida se preocupa com eficiência e sustentabilidade, uso de materiais construtivos e de acabamento com grande tecnologia embarcada, possibilitando facilidades, colaborando com o ciclo de vida da edificação e conforto ambiental. “Coerência entre os espaços no dimensionamento dos ambientes, aberturas para o exterior, mobiliário e equipamentos que privilegiem o equilíbrio ergonômico, proxêmico, psicológico e emocional de seus habitantes se destacam no interior dessas construções”, diz a professora.

Entre a capital e o interior

A procura por casas fora das grandes cidades impulsionada pela pandemia foi sentida pelo mercado imobiliário e ajudou a estimular o setor. “Entre maio e junho de 2020, já começamos a sentir uma procura maior por imóveis”, diz Marcello Romero, CEO da Bossa Nova Sotheby’s, especializada no mercado de alto padrão.

O executivo conta que a quarentena levou as pessoas a repensarem seus espaços em cidades como São Paulo, fazendo crescer a procura por segundas residências com espaços maiores, com mais acesso ao ar livre e próximas à cidade. Coberturas e casas em condomínios fechados estão sendo bastante procuradas para atuarem como uma segunda residência. “O cenário aquecido fez crescer também a procura por lotes em condomínios de luxo, com proprietários que têm pressa em construir”, conta Marcello.

Para o professor Thiago Maso, esse trânsito entre cidades pode estimular cada município a investir naquilo que o torna único. “Os laços com as grandes cidades nunca são perdidos – há uma rede de necessidades que ainda precisam ser físicas – por exemplo, vemos os hospitais de referência que atendem pacientes sem considerar limites municipais. Contudo, estar em um lugar não significa o mesmo que significou para a geração dos nossos pais ou avós. Hoje você consegue ter acesso a qualquer informação ou produto na porta da sua casa em questão de horas, utilizando a internet, e esta conexão faz com que as pessoas estejam liberadas para ficar onde queiram”, afirma Maso.

Conteúdo: ConnectArch – programa de relacionamento da Decortiles.

O tema é Tendência agora

O Connectarch, programa de relacionamento da Decortiles, conversou com diferentes autoridades no assunto dentro de seus segmentos. Allex Colontonio, Lili Tedde e Beto Guimarães nos ajudam a compreender melhor o assunto.

O que são tendências? Com que base elas são pensadas? Quem diz o que é e o que não é tendência? A quem elas atingem? As utilizamos por conta própria ou somos induzidos? Com base nesses questionamentos, os especialistas Allex Colontonio, jornalista, escritor e publisher da revista POP-SE, Lili Tedde, diretora da Edelkoort South e Beto Guimarães, fotógrafo, arquiteto, professor e criador do Mostraí (uma plataforma de cursos online), se dispuseram a tentar desvendar o assunto que, nesse contexto, se direcionou ao segmento arquitetura, casa e decoração.

A verdade sobre as tendências: elas existem mesmo? quem dita?

Parafraseando Heródoto* (485 a.C e 425 a.C) quando diz “olhar para o passado, nos ajuda a entender o futuro”, o arquiteto que também é professor e fotógrafo, Beto Guimarães, acredita que uma parte da sociedade tem a sensibilidade em perceber, por meio de ações comportamentais, os rumos e as mudanças que estão prestes a acontecer. “Algumas pessoas têm essa percepção. É conseguir perceber o que vem por aí, enxergando o entorno e toda a revolução comportamental.” Beto explica que movimentos adversos e os próprios transgressores ditam mudanças, pois “vivem mais a parte de ‘vontade própria’ e os demais vão seguir por falta de opção. São os acomodados que vão entrar na onda porque não têm escolha. Trata-se da evolução cultural da sociedade como um todo, relacionando o contexto local e global, na qual a condução de massas provoca o efeito manada por querer participar do grupo. Desse modo, transgressores fazem prevalecer sua vontade diante do contexto. Tudo isso pauta aspectos comportamentais.”

Lili Tedde, na mesma direção, pontua que a sociedade dita os passos para definir o que é/será tendência. “É analisarmos o caminhar da sociedade e sermos capazes de fazer analogias do que acontece no mundo com as necessidades. Entender o porquê de o ser humano se comportar de certa forma, ou buscar outro caminho gerando uma mudança de hábitos. Muitas vezes povos distantes têm o mesmo tipo de comportamento, de mudança. Podemos analisar, por exemplo, uma crescente em um homem mais sensível e presente na criação dos filhos. Crianças mais maduras, avós mais infantilizados, mulheres mais guerreiras ocupando postos de trabalhos importantes. Vemos os híbridos mais assumidos. Tudo isso faz parte de uma emancipação em que um coletivo tem buscado.”

Na contramão do uso da palavra, o jornalista Allex Colontonio, prefere “narrativas”, mas não se afasta das opiniões. “Como profissionais da área de comunicação, quando abordamos o assunto ‘mercado’, preferimos sempre falar em ‘narrativas’ em vez de ‘tendência’. Narrativas contemporâneas, baseadas nos novos códigos de posicionamento e reconstrução social, em movimentos culturais legítimos, nas novas manifestações humanas, seja nas artes plásticas, na música, na literatura, no cinema, na moda. Também precisamos levar em consideração as novas pesquisas de materiais, as tecnologias mais promissoras, o retrocesso da ação predatória do homem na natureza. Por tudo isso, quase sempre as ‘tendências’ têm tanto mais a ver com dinâmicas efêmeras de hábitos comportamentais que, na era da digitalização e da nova mídia (as influencers), ficam rasas muitas vezes.”

*Heródoto, também conhecido como o pai da história, foi um grande historiador e geógrafo dos tempos antigos.

Biofilia

Muito falado ultimamente, principalmente entre profissionais da arquitetura e design de interiores, o assunto biofilia é a bola da vez. Mas o que biofilia tem a ver com tendência? Tudo! Em uma esclarecedora reflexão sobre o atual cenário de pandemia que levou o mundo à realidade do confinamento, antagonicamente, fez surgir uma necessidade por uma vida mais ligada à natureza, e isso gerou uma mudança significativa no jeito de morar. “No confinamento, a falta de espaço e a imobilidade urbana despertaram o desejo quase incontrolável pelo contato direto com os condicionantes naturais: ventilação cruzada, luz solar, vegetação abundante, seres vivos”, reflete Allex.

“As bolhas começaram a estourar” – Allex Colontonio

Com o impacto dessa frase, o publisher traz à tona a sufocante realidade das grandes cidades e seus aranha-céus cinzas, que pasteurizam a paisagem e a poluição advinda dos milhares de carros que ferem e fazem arder até os narizes mais fortes. Nesse contexto, sua defesa se faz mais que necessária. Se faz urgente. “Precisamos entender que a natureza não é uma entidade a ser domada e/ou conquistada, e nem é uma dimensão remota e inóspita, repleta de bestas-feras mortíferas, que visitamos só quando precisamos colher matérias-primas ou nutrientes. A natureza é um complexo sistema universal-inaugural do qual fazemos parte indissociável e do qual devemos usufruir sem destruir”, pontua Collontonio.

Biofilia x Mundo virtual

Ainda sobre biofilia, Lili Tedde se junta à Allex, mostrando que é, sim, uma tendência e que fica ainda mais clara quando a virtualidade das coisas toma conta e proporções nunca antes imaginadas. “Quanto mais virtuais nos tornamos, mais necessidades teremos de texturas e tactilidade, para nos trazer de volta à realidade. Essa é uma das razões pelas quais as pessoas passaram a se interessar em fazer hortas ou pães em suas casas. Trata-se do executar com as mãos, construir algo real, cuidar e ainda sentir um cheirinho de esperança. Precisamos pisar na terra, o chamado Grounding, para energizarmos. Estudos mostram que duas horas por semana que passamos em contato com a natureza já provoca cura significativa em nossos corpos”, conta Lili.

Em um paralelo com a eletricidade que mudou completamente o modo de vida no século 20, Beto crê que com a evolução/revolução digital nada é perene. “A revolução digital dá muito poder para as pessoas e, assim, tudo muda a todo tempo.” Trazendo para o universo da arquitetura, ele acredita que essa ‘não perenidade’ será percebida em alterações internas, dentro das casas. “As mudanças vão acontecer muito mais na parte de interiores em relação à parte estrutural.” E questiona: “Quando não tiver mais pandemia, o que vamos querer? Vai haver uma adequação: talvez dois dias em casa e três no escritório? Então os escritórios precisarão ser reformulados assim como a casa”, reflete.

Para onde vamos?

Jogando luz ao questionamento do professor Beto Guimarães (“Quando não tiver mais pandemia, o que vamos querer?”), impõe-se a reflexão sobre o atual momento, tudo o que ele trouxe, o quanto ele mudou a vidas das pessoas e o que vai, de fato, ficar? Ele acredita que, dada a realidade, “estamos sofrendo restrições de vontades”, mas, em contrapartida, comemora o fato de poder almoçar com as filhas todos os dias e pondera: “a partir de agora, a diversidade de escolhas ficará mais clara e teremos mais opções, inclusive, devido ao acelarado avanço da tecnologia que, para mim, é uma tendência –

teremos a tecnologia como tendência para a velocidade das coisas ao mesmo tempo em que, paralelamente, eu acredito que as pessoas terão cada vez mais necessidade de se sentirem acolhidas, abraçadas.”

O futuro e casa

Na ausência daquilo que se havia em abundância, Lili também acredita numa busca, talvez inconsciente, por uma aproximação com a natureza. “Tudo que já era pesquisado, como abraçar árvores ou caminhar no mato, hoje se tornou luxo de primeira necessidade. Trazer para nossas casas um pouco dessas caracteríticas, seja no piso mais rústico com textura ou sensação de terra, ajuda a acalmar e confortar. Sabemos que jamais voltaremos a ser como antes. Em alguns aspectos nos tornamos mais sensíveis e cuidadosos. Descobrimos o quão frágeis somos. As máscaras continuarão presentes, e, claro que surgirão estudos sobre o tema. Bem como todo o cuidado com limpeza, distanciamento trarão mais novidades do que já surgiram. É um novo mundo que ainda teremos que desvendar”, destaca a pesquisadora.

Para o jornalista Allex Colontonio, “ser parte da natureza ficou mais evidente nos últimos meses e deve interferir no modo de pensar/operar das pessoas nos próximos anos. Vale relembrar o exemplo das construções indígenas ancestrais capazes de regular o conforto térmico até mesmo nas condições mais extremas de temperatura – algumas etnias da Amazônia buscam inspiração arquitetural para suas ocas na anatomia das capivaras. Neste contexto, há possibilidades de que ‘escolas’ como o modernismo brasileiro (que tanto preza pelas curvas e traços livres carregados de componentes artísticos) sejam revisitadas e atualizadas. A casa enquanto ‘máquina de morar’ poderá ser convertida numa máquina de ser, estar, amar, conviver, compartilhar”, finaliza.

*A biofilia é o amor à vida. Este termo foi popularizado por Edward Osborne Wilson, num livro com o mesmo nome publicado pela Harvard University Press 1984. Em seu livro, Wilson descreve a biofilia como uma tendência natural a voltarmos nossa atenção às coisas vivas. Fonte: Wikipédia

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